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Quando em março de 2020 nos vimos forçados a fazer esta mudança na maneira como vivemos em sociedade, quer pela maneira como tivemos que reaprender a comunicar e a relacionar-nos com os outros quer a nível profissional quer a nível pessoal, surgiram-nos todo um conjunto de desafios que, a bem da verdade, ninguém sabia como ia responder.

(É verdade que) A internet começou rapidamente a ficar inundada de artigos onde toda a gente parecia estar a usar esta ocasião como uma oportunidade para fazer tudo o que sempre quiseram, tirar um curso, escrever um livro, plantar árvores (na varanda),  fazer os filhos da creche tirar um curso de engenharia nuclear, ser “produtivo como nunca foi!” pareceu durante bastante tempo ser o slogan do momento. 

(Por uns tempos) Todos tivemos esperança que isto nos ia fazer melhores. Todos tivemos a esperança que esta ocasião era “a ocasião” para nos tornarmos máquinas de produtividade pessoal e profissional onde não mais haveria caos a circundar e onde tudo na nossa vida passaria a levitar em perfeita harmonia como um sistema caótico [1], numa ilusória sensação de coordenação como a formação de uma tempestade onde qualquer alteração pode e irá resultar em algo que, garantidamente vai fugir do nosso controle.

Todos tivemos esperança que íamos sair daqui mais fortes como sociedade, onde todos juntos íamos ultrapassar este desafio (para muitos o maior desafio que terão que enfrentar como parte de uma sociedade), onde todos iriamos olhar uns pelos outros e, acima de tudo estar “cá pelos outros”. 

A maioria das pessoas passou a tratar esta nova época como o grande desafio da vida deles e focou-se inteiramente em conseguir suceder. Ter sucesso, não só pelas expectativas que colocou quando tudo começou mas também para conseguir cumprir os objetivos pessoais, conseguir ser “mais produtivo que nunca”, ser o que mais sucedeu perante os colegas, perante os amigos, ser o que mais argumentos apresentou quando chegou a altura de educar e ensinar os filhos. Agora era/é “a oportunidade”.

O que de alguma forma nos esquecemos de considerar na equação, foi o peso inegável e inevitável do tempo, da passagem dos acontecimentos e até das estações do ano, que naturalmente e quase sem nos darmos conta, começaram a fazer-se sentir.

E com isso a realização que muitas das expectativas que colocamos para nós próprias foram não mais do que irrealistas. 

De repente e sem que nada o fizesse prever, vimo-nos confrontados com um reflexo muito real de nós próprios.

Houve um despreocupar disfarçado de “todos juntos vamos conseguir” que, tão rápido se transformou em “se eu consigo aguentar tu também consegues” que, olhando para a questão friamente, apesar de não ser surpresa o caminho para termos chegado a este ponto é, confesso um bocado nubloso para mim.

Talvez nunca o admitamos, talvez passemos anos até finalmente podermos falar em aberto do quão mal ultrapassamos os desafios que a pandemia nos está a colocar, mas vamos continuar a não perceber o quão mal está a fazer-nos e à nossa sociedade esta resistência em revelar o facto simples de que todos lutamos nesta adaptação ao mundo novo onde estamos a ser obrigados à força a ter que reaprender a viver. 

 

Entra, a empatia.

em·pa·ti·a 

(grego empátheia, -as, paixão)

nome feminino

Forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa (ex.: a empatia entre os voluntários e a população local era evidente; assistimos à perfeita empatia entre piano e violino).

"empatia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/empatia [consultado em 06-11-2020].

 

A empatia é a qualidade mais importante e mais necessária nas pessoas de hoje. 

Começa pela exposição simples da nossa vulnerabilidade. Todos nós temos fraquezas, a realização, através da comunicação aberta com outros, de que todos nos sentimos vulneráveis em determinado ponto e que sofremos com o que aconteceu e ainda está a acontecer ao mundo e a nós próprios, implica coragem para sermos nós próprios, implica deixarmos cair o “foco em suceder” a todo a todo o custo, porque a situação da sociedade assim o diz.

 

Implica olhar para outro, pelo outro e não pelo quão erradas são as ações que ele está a tomar. 

E isto, é um desafio para o qual não estavamos preparados. Quando a comunicação insiste em nos colocar num estado de mental de guerra constante, nunca como hoje é tão importante focar-nos primeiro na razão que leva alguém a fazer ou a dizer algo que possa estar de alguma forma contra o estabelecido socialmente no momento para não cairmos na armadilha da polarização e da incompreensão que nos vai fazer criar uma incapacidade, que começa a ser sistémica, de empatizar com alguém. 

 

Simplesmente ou estão connosco ou estão contra nós.

É urgente, (re)começarmos a olhar para o outro com empatia. Por trás de qualquer conversa, por trás de qualquer post numa rede social, há alguém (para além dos obviamente maus) que está desesperadamente à procura de respostas, e a gritar por atenção por não ser capaz de lidar com algum aspecto do que estamos a passar. Por muito que custe, que eu sei que custa, temos que começar a olhar para além do que são os primeiros impactos das interações com as pessoas e perceber que solteiros, casados, com filhos, sem filhos, letrados, formados ou não há uma batalha em cada um de nós para cooperar com o que nos está a acontecer, e que nem todos temos a inteligência emocional, a resiliência para resistir. 

 

Nem todos, aliás, cada vez menos, muitos dos que resistiram até agora começam a quebrar. 

A noção de liderança em cada um de nós esta a ultrapassar o desafio de uma vida e nós vamos conseguir, vamos agarrar os nossos, expor a nossa vulnerabilidade e tomar as nossas ações sabendo, que ao olhar de frente para o que sentimos, vamos conseguir olhar melhor para o que os outros dizem, mesmo para os que nunca o irão admitir, mesmo para os que dizem que não precisam, especialmente para os que dizem que não precisam.

 

Vocês lideres, olhem por vocês, olhem pelos vossos.

 

[2] Brené Brown, a leading expert on social connection, discovered through her research that vulnerability is what lies at the root of social connection., https://www.excel-communications.com/vulnerability-why-it-is-a-leadership-strength-not-a-weakness/

[1] Wikipedia, Teoria do Caos, https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_caos

Bons exemplos de sistemas caóticos são o crescimento de lavouras e a formação de tempestades, onde qualquer pequena alteração, direção, velocidade de ventos por exemplo, pode provocar grandes mudanças num intervalo de tempo maior.

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