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A falácia do “work-life balance”

por Salvador, em 17.02.20

21693309_Niuyt.jpegIlustração de Simone Roberto / CCA‬

Parece-me que a par da temática do “a tecnologia está a destruir as nossas vidas” o tema da procura constante do “work-life balance” deve ser a questão filosófica do século. 

Já deram alguma atenção aos mais recentes anúncios de emprego, sejam eles de que área forem? Todas as empresas estão apostadas em vender-nos a ideia que com eles conseguiremos ter o melhor “work-life balance” que podemos ter, que com eles, vamos poder cumprir todos os nossos desejos pessoais e que o trabalho passará por nós sem darmos por ele, que naquela empresa não há mais stress. Ali podem descansar. 

O que estes anúncios não dizem é que o trabalho vai continuar a necessitar de ser feito. Há uma componente, quase ironicamente irrisória nos dias que correm, num trabalho que faz com que efetivamente tenhamos que entregar trabalho feito, estar alinhado com os objectivos da empresa e que só assim a empresa poderá continuar a dar-nos as condições para sermos felizes enquanto fazemos parte da sua estrutura. 

Só de pensar nisto, atualmente já é um stress certo? Já pensamos que à primeira oportunidade todas estas empresas que nos vão tirar tempo para poder faltar ao ginásio porque queremos e não porque estivemos a trabalhar. Certo?

Aqui, começa o mito pouco saudável do balanço vida-trabalho.

Mesmo quando não somos apaixonados pelo nosso trabalho (ou o trabalho não o exige) ao ponto de trabalharmos uma quantidade infinita de horas a mais por semana, pensar em balanço vida-trabalho não é a melhor das ideias. De facto, chega até a ser uma noção bastante problemática na medida em que, pensar que podemos ter tudo em doses perfeitas é prejudicial para nós, pois cria uma pressão desnecessária para conseguir um impossível  e nem tão pouco louvável, objetivo.

O primeiro problema com a expressão “balanço vida-trabalho” é a sua própria linguagem. 

Temos que deixar de nos focar na batalha constante da definição do que é o melhor balanço vida-trabalho como se o trabalho e a nossa vida pessoal não pudessem coexistir de forma equilibrada e saudável. Nós somos a mesma pessoa certo? Se somos a mesma pessoa para quê lutar contra a inevitabilidade que é a de termos que ter um emprego e acima de tudo de muita das vezes nos sentirmos mal por gostarmos do nosso emprego ao ponto de o fazermos mais horas por dia que aquelas que são estipuladas pelo que nos liga ao emprego.

Vivemos num mundo onde toda a gente sabe o que é melhor para nós, certo? A premissa de que somos uma sociedade cada vez mais social onde o dever de criar regras idiotas sobre como o próximo deve viver a vida dele é um filme de terror à espera de acontecer. Nós somos donos das nossas faculdades (sempre que possível), da nossa capacidade física e intelectual e temos por base o direito de fazer com elas o que quisermos. Como é óbvio não somos uma ilha, temos família, temos vida pessoal para além do trabalho, sim, vida pessoal e não só vida, porque a expressão deverá ser “balanço entre a vida pessoa e a vida profissional” porque, a vida do trabalho e a vida pessoal não são forças opostas e devemos deixar de as tratar como tal. (Jeff Bezos prefere a expressão “harmonia entre a vida e o trabalho” porque balanço implica algum tipo de troca/transação.)

Nós devemos procurar não viver um balanço vida pessoal-vida profissional mas sim, viver uma vida balanceada em geral porque independente de como lhe chamamos, esta noção a vida é o que nos está a acontecer e o trabalho é uma das coisas que fazemos na vida. 

Com isto, temos que viver com a noção exata de que tudo o que fazemos tem custo e consequências. Prioritizar sempre em todos os momentos, o trabalho que adoramos em relação à nossa familia vai ter custo na relação que teremos com eles até porque estaremos mais cansados, com menos paciência e todo o tempo que já é reduzido passará a simplesmente não ser prazeroso e outra razão de stress. E com isto passaremos a estar mais tempo no trabalho e de repente o trabalho torna-se a razão principal de não estarmos a conseguir suceder a nível pessoal é o trabalho. O inverso torna-se imediatamente verdade da mesma maneira quando nunca tiramos tempo para realmente nos focarmos e dedicarmos aquele bocado extra no trabalho, mesmo estando a gostar só porque não é moralmente aceitável trabalhar mais do que aquele tempo que nos está a ser incutido.

Temos que aprender a viver com consciência de que este estado utópico onde conseguimos efetivamente ter tudo e viver um balanço perfeito entre o trabalho e a vida pessoal é impossível de atingir e que enquanto continuarmos a falar nele vamos continuar a alimentar uma sociedade onde as pessoas vivem a sentir como se tudo fosse um falhanço porque não conseguem atingir este impossível.

Fazer as coisas (sejam elas ser pai, companheiro, profissional) bem requer tempo e dedicação, requer paixão, e para as fazermos bem sabemos que vamos ter que abdicar de outras de forma a dedicar tempo aquilo que verdadeiramente amamos. 

Por tudo isto, devemos focar-nos em ser os melhores pais possíveis, focar-nos em exceder-nos no trabalho diariamente, focar-nos em praticar o qualquer hobbies que nos faz feliz assim como em todas as outras coisas que nos permitem ser bons em tudo o que realmente nos preocupamos.

E, paremos de falar em “balanço vida-trabalho” porque, e importa não esquecer, a vida essa, vai continuar a acontecer.

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