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Conversas sobre inteligência emocional

por Salvador, em 11.04.20

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O mundo está a passar por uma crise como não há memória. 

Está a fazer parar as nossas cidades, os nossos negócios, está a levar familiares nossos para o hospital, está a levar-nos a ter que estar em isolamento longe das nossas rotinas e da nossa liberdade de estarmos onde e como quisermos. Está a mudar radicalmente a maneira como nos relacionamos e, digamos a verdade, não sabemos, de maneira nenhuma, quando é que vai voltar ao normal.

Está a colocar desafios que nunca pensaríamos ter de lidar como sociedade e, acima de tudo, está a colocar uma pressão brutal sobre nós como pessoa. 

Hoje estamos todos em isolamento e vai ser difícil lidar com isso. Vai. Assumir que isto acontecerá e passará com a normalidade de quem passa um fim de semana no sofá a ver televisão é só não atuar antes de o problema ser real e não sabermos como o enfrentar. 

Vamos assistindo ao estado de espírito das pessoas nas redes sociais: “normal!”, podemos cair no erro de pensar mas as pessoas estão assustadas e a demonstrar que o povo português, do mar, bravo e imortal que fez os descobrimentos adormeceu quando os nossos avós voltaram do ultramar para nunca mais acordar e acreditem, não vai acordar. 

Hoje vivemos numa sociedade de informação, onde muita literacia e uma falta de paciência quase patológica nos leva a não conseguir ler nada de ponta a ponta que nos seja presenteado através de um ecrã. E apesar de isto ser mau, não está necessariamente mal, nem a culpa é toda nossa. 

Não estamos habituados a cultivar a nossa inteligência emocional. De maneira nenhuma. Não estamos habituados a ter que atentar às emoções dos outros, compreender e racionalizar o que elas podem significar para nós e para as outras pessoas. Afinal, escrever e ser lido está mesmo ali à distância de uma app e meia dúzia de palavras num teclado não é verdade? Pois preparem-se que a hora de terem que colocar muitas das vezes as vossas emoções à frente do próximo pelo bem da vossa sobrevivência em sociedade chegou.

 

Sobre o que é a inteligência emocional

Salovey e Mayer definiram inteligência emocional como:

...a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros. (Salovey & Mayer, 2000).

As pessoas com maior quociente emocional ou inteligência emocional, têm tipicamente 4 atributos:

  1. Capacidade de auto gestão “self-management”: Estas pessoas são capazes de controlar sentimentos e comportamentos impulsivos, gerir as emoções de formas saudáveis, tomar iniciativa e seguir compromissos e adaptar-se a mudanças de circunstâncias.
  2. Auto-consciência “self-awareness”: Estas pessoas são capazes de reconhecer as próprias emoções e como elas afetam a sua maneira de pensar e os seus comportamentos. Sabem quais são as suas forças e fraquezas e têm auto-confiança.
  3. Consciência social “social-awareness” – Estas pessoas são capazes de ter e desenvolver empatia para com os outros. Conseguem compreender as emoções, necessidades e preocupações de outras pessoas, sentem-se confortáveis socialmente e reconhecem o poder das dinâmicas de grupo numa organização.
  4. Capacidade de gestão de relacionamentos – Estas pessoas sabem como desenvolver e manter boas relações, comunicar com clareza, inspirar e influenciar outros, trabalham bem em equipa e sentem-se à vontade a gerir conflitos.

 

Porque é tão importante a inteligência emocional?

É sabido que as pessoas mais inteligentes não são as que mais sucesso têm na vida ou nem tão pouco se sentem mais realizadas (aliás muitas das vezes são mesmo das mais miseráveis). Vocês provavelmente conhecem alguém que, apesar de ter vários graus académicos e ser reconhecido como alguém com um elevado quociente de inteligência luta para conseguir suceder socialmente e para conseguir ter e manter relações pessoais. Capacidade intelectual não é de todo suficiente para que possamos conseguir ter sucesso na vida. Sim é certo que o vosso quociente de inteligência os pode fazer entrar na melhor faculdade ou conseguir fazer o caminho até aquele exame que precisamos para obter alguma certificação, mas é o vosso quociente emocional que vos vai dar as ferramentas para conseguir ultrapassar o stress e as emoções para enfrentar os exames e acima de tudo, vos vai ajudar a preserverar e tentar outra vez caso não consigam passar um determinado desafio à primeira. 

Podem estar certos que é o vosso quociente emocional que vos vai dar as ferramentas para depois de todo este tempo confinados, quando formos desafiados a ir para a rua e aprendermos a viver com este inimigo silencioso, conseguirmos viver a nossa vida, conseguimos olhar pelos nossos e acima de tudo consigamos contribuir para que esta sociedade ferida consiga reerguer-se.

O vosso quociente de inteligência e o vosso quociente emocional existem e devem ser desenvolvidos em conjunto e são mais eficientes no vosso desenvolvimento pessoal quando eles próprios são trabalhados e desenvolvidos em conjunto.

Ficam algumas dicas, que apesar de parecerem um enorme lugar comum, têm um papel cada vez mais fulcral  no desenvolvimento da nossa inteligência emocional e preservação da saúde mental nos tempos de pandemia:

  • Minimizem a quantidade de informação que à qual estão expostos. Reduzam o tempo a ver notícias a 30 min por dia, e só leiam fontes oficiais. É verdade, está na hora de sair daqueles grupos do Facebook e do WhatsApp e pedir educadamente às pessoas que vos partilham aquelas opiniões daquele “amigo médico” para ignorarem o vosso número. 
  • Foquem-se naquilo que conseguem controlar. Esqueçam a foto dos engarrafamentos na ponte, o comentário das famílias inteiras no supermercado, das fotos das pessoas a correr ou a passear de mão dada. Hoje, tudo, tudo o que vos é partilhado vêm manipulado em forma pela opinião das pessoas que o estão a partilhar. Nunca foram partilhadas tantas notícias falsas (Fake News), nada é aquilo que parece à primeira vista. Vejam o exemplo da “Susana Oliveira” no Polígrafo. Foquem-se nas vossas ações e minimizem a quantidade de informação à qual estão expostos.
  • Faça exercício físico. O melhor que conseguir em casa, há várias iniciativas onde estão a ser publicados exercícios para nos ajudar a mantermo-nos ativos em casa. A Universidade do Porto e o CDUP estão a oferecer guias de atividade física online aqui.
  • Mantenha rotinas o melhor possível. Tente ao máximo fazer a rotina que faria no dia corresponde da semana, se for dia de semana, faça a rotina normal de um dia de trabalho, se for fim de semana a mesma coisa. Não passem o dia de pijama e façam as refeições a horas mantendo o melhor possível uma alimentação saudável. 
  • Tenham pensamento positivo e aceitem a situação atual. É uma coisa pela qual todos estamos a passar, e com a qual todos estamos a lutar interna e externamente. A capacidade de aceitar e guiar a nossa mente para o que de positivo podemos fazer para ajudar a que esta situação seja mais fácil de ultrapassar para nós e para os outros é, sem sombra de dúvida o que nos irá fazer suceder.

 

Fiquem seguros. #FiquemEmCasa

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A falácia do “work-life balance”

por Salvador, em 17.02.20

21693309_Niuyt.jpegIlustração de Simone Roberto / CCA‬

Parece-me que a par da temática do “a tecnologia está a destruir as nossas vidas” o tema da procura constante do “work-life balance” deve ser a questão filosófica do século. 

Já deram alguma atenção aos mais recentes anúncios de emprego, sejam eles de que área forem? Todas as empresas estão apostadas em vender-nos a ideia que com eles conseguiremos ter o melhor “work-life balance” que podemos ter, que com eles, vamos poder cumprir todos os nossos desejos pessoais e que o trabalho passará por nós sem darmos por ele, que naquela empresa não há mais stress. Ali podem descansar. 

O que estes anúncios não dizem é que o trabalho vai continuar a necessitar de ser feito. Há uma componente, quase ironicamente irrisória nos dias que correm, num trabalho que faz com que efetivamente tenhamos que entregar trabalho feito, estar alinhado com os objectivos da empresa e que só assim a empresa poderá continuar a dar-nos as condições para sermos felizes enquanto fazemos parte da sua estrutura. 

Só de pensar nisto, atualmente já é um stress certo? Já pensamos que à primeira oportunidade todas estas empresas que nos vão tirar tempo para poder faltar ao ginásio porque queremos e não porque estivemos a trabalhar. Certo?

Aqui, começa o mito pouco saudável do balanço vida-trabalho.

Mesmo quando não somos apaixonados pelo nosso trabalho (ou o trabalho não o exige) ao ponto de trabalharmos uma quantidade infinita de horas a mais por semana, pensar em balanço vida-trabalho não é a melhor das ideias. De facto, chega até a ser uma noção bastante problemática na medida em que, pensar que podemos ter tudo em doses perfeitas é prejudicial para nós, pois cria uma pressão desnecessária para conseguir um impossível  e nem tão pouco louvável, objetivo.

O primeiro problema com a expressão “balanço vida-trabalho” é a sua própria linguagem. 

Temos que deixar de nos focar na batalha constante da definição do que é o melhor balanço vida-trabalho como se o trabalho e a nossa vida pessoal não pudessem coexistir de forma equilibrada e saudável. Nós somos a mesma pessoa certo? Se somos a mesma pessoa para quê lutar contra a inevitabilidade que é a de termos que ter um emprego e acima de tudo de muita das vezes nos sentirmos mal por gostarmos do nosso emprego ao ponto de o fazermos mais horas por dia que aquelas que são estipuladas pelo que nos liga ao emprego.

Vivemos num mundo onde toda a gente sabe o que é melhor para nós, certo? A premissa de que somos uma sociedade cada vez mais social onde o dever de criar regras idiotas sobre como o próximo deve viver a vida dele é um filme de terror à espera de acontecer. Nós somos donos das nossas faculdades (sempre que possível), da nossa capacidade física e intelectual e temos por base o direito de fazer com elas o que quisermos. Como é óbvio não somos uma ilha, temos família, temos vida pessoal para além do trabalho, sim, vida pessoal e não só vida, porque a expressão deverá ser “balanço entre a vida pessoa e a vida profissional” porque, a vida do trabalho e a vida pessoal não são forças opostas e devemos deixar de as tratar como tal. (Jeff Bezos prefere a expressão “harmonia entre a vida e o trabalho” porque balanço implica algum tipo de troca/transação.)

Nós devemos procurar não viver um balanço vida pessoal-vida profissional mas sim, viver uma vida balanceada em geral porque independente de como lhe chamamos, esta noção a vida é o que nos está a acontecer e o trabalho é uma das coisas que fazemos na vida. 

Com isto, temos que viver com a noção exata de que tudo o que fazemos tem custo e consequências. Prioritizar sempre em todos os momentos, o trabalho que adoramos em relação à nossa familia vai ter custo na relação que teremos com eles até porque estaremos mais cansados, com menos paciência e todo o tempo que já é reduzido passará a simplesmente não ser prazeroso e outra razão de stress. E com isto passaremos a estar mais tempo no trabalho e de repente o trabalho torna-se a razão principal de não estarmos a conseguir suceder a nível pessoal é o trabalho. O inverso torna-se imediatamente verdade da mesma maneira quando nunca tiramos tempo para realmente nos focarmos e dedicarmos aquele bocado extra no trabalho, mesmo estando a gostar só porque não é moralmente aceitável trabalhar mais do que aquele tempo que nos está a ser incutido.

Temos que aprender a viver com consciência de que este estado utópico onde conseguimos efetivamente ter tudo e viver um balanço perfeito entre o trabalho e a vida pessoal é impossível de atingir e que enquanto continuarmos a falar nele vamos continuar a alimentar uma sociedade onde as pessoas vivem a sentir como se tudo fosse um falhanço porque não conseguem atingir este impossível.

Fazer as coisas (sejam elas ser pai, companheiro, profissional) bem requer tempo e dedicação, requer paixão, e para as fazermos bem sabemos que vamos ter que abdicar de outras de forma a dedicar tempo aquilo que verdadeiramente amamos. 

Por tudo isto, devemos focar-nos em ser os melhores pais possíveis, focar-nos em exceder-nos no trabalho diariamente, focar-nos em praticar o qualquer hobbies que nos faz feliz assim como em todas as outras coisas que nos permitem ser bons em tudo o que realmente nos preocupamos.

E, paremos de falar em “balanço vida-trabalho” porque, e importa não esquecer, a vida essa, vai continuar a acontecer.

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Imagem: willowtreeapps.com

Já alguma vez acordaram, abriram os olhos e de repente a vossa única vontade é voltar a dormir porque sentem que não pertencem a lado nenhum? Já sentiram um medo quase ilógico de que os vossos amigos e colegas vão descobrir que são uma fraude e que tudo o que conseguiram pessoal e profissionalmente não foi mais do que sorte e que na verdade vocês não o mereciam? Já sentiram que têm que trabalhar até à exaustão nas vossas relações porque na verdade tiveram sorte em conseguir estar com a pessoa que está convosco e têm pavor que um dia sejam eles a acordar e a perceber que na verdade vocês não servem para eles?

Se já, estão em boa companhia. Uma estimativa de 70% da população mundial já sofreu com estes sentimentos em algum momento da sua vida. Afecta todos os tipos de pessoas em várias fases da vida, desde homens, mulheres, operários, estudantes, atores, filósofos e até executivos.

O que é o Sindrome do Impostor?

O síndrome do impostor caracteriza-se pela ideia constante de que sucedemos na vida apenas por sorte e não pelas nossas qualificações ou talento. Pode revelar-se como uma sensação constante de que somos uma fraude vivendo perturbados pelo medo de que um dia vão descobrir que nada do que conseguimos foi por causa do nosso trabalho, do nosso talento, da nossa dedicação a alguma coisa mas apenas do acaso, chegando muitas vezes a achar que foi um erro de julgamento das outras pessoas (por exemplo quando conseguimos um emprego melhor). 

Não é uma doença e também não está ligado necessariamente a quadros depressivos ou de ansiedade nem a problemas de auto-estima no entanto consegue ser incapacitante na medida em que a certos níveis, pessoas que sofrem deste síndrome chegam elas próprias a boicotar-se por pensar que simplesmente não vale a pena, pois a sua empresa um dia vai saber que não merecemos aquele trabalho e vai despedir-nos ou aquela pessoa com quem temos uma relação vai inevitavelmente acabar por terminar a nossa relação porque, bem, eles são bons demais para nós.

Estes sentimentos não estão restritos a pessoas com mais ou menos capacidades, qualquer individuo é susceptível ao fenómeno da ignorância pluralista onde cada um deles dúvida das suas capacidades em privado mas acredita que estão sozinhos porque mais ninguém expressa as suas próprias dúvidas e receios e entrar numa espiral de sentimentos de que não merecem o que conseguiram na vida quando comparadas com outras pessoas.

E, não há limite de sucessos e realizações que consigam fazer descansar estes sentimentos.

Como não há uma forma fácil de saber o quanto os outros passam por dificuldades, o quão intensamente eles têm que trabalhar, o quão difícil eles acham certas tarefas, o quanto também eles duvidam de si próprios não há uma forma fácil de não nos deixarmos apoderar pelos sentimentos de somos menos capazes do que qualquer pessoa à nossa volta.

O síndrome do impostor, em particular o sentimento constante de não pertencermos a lugar algum porque não fomos merecedor dos sucessos que conseguimos é um estado constante de inquietude que quando levado ao extremo pode fazer-nos perder a oportunidade de ser melhor, de arriscar e dar o salto para algo onde, por muito que não nos sintamos confortáveis é o nosso lugar por direito, porque trabalhamos, lutamos, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance por aquele trabalho, aquela pessoa, e nada, nunca nos deveria tirar o prazer de conseguir aproveitá-lo e sentirmos o verdadeiro estado de realização quando lá chegamos. 

E tudo isto acontece porquê? Porque primeiro, não partilhamos: a mera ideia de passarmos como vulneráveis para alguém é a primeira consciencialização de falhanço. O que não poderia estar mais errado. Toda a relação seja ela profissional ou pessoal assenta na base de que temos noção exata das nossas fraquezas de forma a que possamos de forma aberta e transparente fazer tudo para as atacar e desta forma evoluirmos para pessoas melhores. E segundo: assumimos sempre que as outras pessoas não passam por dificuldades não têm defeitos e nunca em circunstância alguma passam pelo tipo de problemas e inseguranças que nós. Pois então, olhemos para a frases do filósofo Michel de Montaigne: “Kings and philosophers shit—and so do ladies.”, o que literalmente quer dizer “Reis e filósofos cagam - assim como as senhoras”. 

E no fim tudo isto é que importa, ou seja, quando sentirem que todos à vossa volta são perfeitos e que as coisas acontecem de forma fácil para toda a gente menos para vocês, pensem na citação acima e olhem para as situações de um prisma diferente, porque a única certeza que podemos ter é que neste jogo da vida, não estamos sozinhos nas coisas boas, nem, e podem bem apostar, nas coisas más.

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Algumas referências.

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